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terça-feira, 14 de maio de 2013

minha infância em Minas!

aproveitei o Dia das Mães para vir dar um beijo em dona Regina e ficar um semaninha aqui no interior, recarregando as bateriais... e com o tempo livre, aproveitei para diminuir a pilha de livros a serem lidos... como é bom deitar e simplesmente ler, os pensamentos fluem e dá até vontade de escrever umas linhas...



ando lendo tanto Rubem Alves, que também começo a acreditar que vivi a infância numa roça mineira qualquer, rodeada de montanhas, em que, quando o sol aparecia já era tarde e o galo sempre atrasava seu despertar cocoricó...
 
engraçado que chego a sentir saudades desta infância tardia que inventei para mim, com a ajuda das palavras do escritor... assim me lembro da geléia de jabuticaba açucarada que me arrepiava os dentes, mas que comia aos montes, junto com pão quentinho de minuto e do queijo amarelinho da Canastra, que se fazia o pão de queijo melhor do mundo... dos pés sempre descalços, encardidos de um alaranjado que não saia nem esfregando com bucha vegetal e que minha mãe acredita até hoje, que o motivo de meus pés serem grandes, foi justamente o fato de andar descalça nesta infância... voltava da escola com as sandalinhas nas mãos...
 
tenho saudade também dos pintinhos do galinheiro e da choradeira que era toda vez, que era dia de fazer galinha ao molho pardo... mas nunca deixei de comer o cozido feito no fogão à lenha!
e neste devaneio de apropriação das memórias alheias, vou misturando o que vivi com o que poderia ter vivido, se lá em Minas tivesse nascido, e assim, vou tecendo uma lembrança gostosa de sentir, pois ter passado a infância em Minas, deve ter sido bom demais... um exercício criativo, que pode ser infinito e rico em detalhes...
 
 ahhh que vontade desta infância mineira... só penso nos quantos tachos de doce de leite e goiabada eu teria raspado!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Crônicas de Dona Regina


quando um neto inspira uma avó...

O sentido da vida
 "Um menino nasceu - o mundo tornou a começar!..."
por Regina Padilha
pode sonhar pequeno... pode sonhar muito!


E foi assim mesmo que sentí quando Francisco meu neto( que orgulho ) nasceu.
Foi um turbilhão de sentimentos que invadiu-me o peito e fêz-me forte, porque este menino renovou as minhas esperanças na vida e é como se com ele, minha vida recomeçasse e eu desse uma nova chance para mim mesma.
Quando testemunhei, na maternidade, o encontro entre Ju, Pedro e Francisco, percebi com nitidez absoluta, o sentido da vida, a continuidade da família, o curso natural idealizado por Deus.
Enquanto Francisco era aguardado, rezei muito, confesso, pedí a Deus para que ele fosse perfeito física e mentalmente e que fosse manso, tranquilo, mas Deus não só ouvi-me, como ainda acrescentou à sua generosidade, a beleza a este menino, que é de verdade, uma linda criança.
Foi tê-lo nos braços e nossos olhos se encontrarem, e fiquei perdida de amor e a canção há tanto tempo guardadinha no meu coração, apresentou-se e quase num sussurro eu o embalei -"Boi, boi, boi, boi da cara preta..."- e naquele momento, eu era outra vez, a jovem mãe, com a mãe dele no colo e eu soube, neste mesmo instante, que ele era meu neto, mas que o meu amor por ele, era acrescentado pelo meu amor à sua mãe e pois então, amor dobrado!
E do dia 14 de setembro, dia deste nascimento para cá, estou levitando, suspensa em emoção enorme, que aconchega meu coração e dá-me vontade de abraçar e celebrar com todas as pessoas que cruzam meu caminho.
E a imaginação segue delirante, o que será, que será que Francisco vai ser? Do que, de quem vai gostar?
E só sei que a mim basta que ele seja uma pessoa do bem e de bem com a vida!
Sei que quero que ele sonhe muito diante de uma caixa de brinquedos e que transforme o cavalinho de madeira, em corcel veloz cruzando o mundo e que seus soldadinhos, possam ser seus heróis, vencedores de todas as batalhas.
Sei que quero ver com ele, lindos livros de gravuras coloridas, quero ensinar canções e poesia, quero brincar de teatrinho de fantoche, quero contar histórias, quero enrolar brigadeiros para as suas festinhas e tudo o mais que puder, para alimentar sua capacidade de sonhar, porque sonhadores têm o que buscar e vão mais longe.
Mas sei também que quero ter para ele, as minhas mãos sempre estendidas, ao alcance das suas, para ele acreditar e confiar nas palavras que já sussurro aos seus ouvidos:
"Vem Francisco, vem viver a vida, conhecer o mundo, sentir o ar na terra fresca, conhecer o pôr do sol dourando a areia, vem construir amizades verdadeiras, vem sem medo que a vovó está aqui, para apoiá-lo desde seus primeiros hesitantes passinhos, até onde me for possível acompanhar os seus sólidos passos, pelos caminhos que você  escolher percorrer!"

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Crônicas de Dona Regina

esta semana começou com a cena triste do ipê ao chão... em junho eu o havia fotografado em seu esplendor, aqui... dona Regina que passava pelo ateliê, no dia,  também viu a cena... é enorme a falta que ele está fazendo...

"O Ipê Rosa, Rosinha"
por Regina Padilha




"O que é bonito enche os olhos de lágrimas."
                                                                Adélia Prado

Em plena primavera ele se foi.

O ipê rosinha defronte à casa azul, feito soldado que tomba no front, tombou diante da inclemência do vento feroz que soprou sobre Ribeirão Preto, no sábado, 29 de outubro.

Ver suas raízes expostas na calçada, seu tronco, trincado de morte, suas folhas, espalhadas, ele tão nobre e altivo, foi de cortar o coração e dar travo na garganta,s endo que ainda há pouco tempo,f loresceu majestosamente, com centenas de flores rosa bem clarinho, tão leves, etéreas, verdadeiros flocos de nuvens, produzindo intenso espetáculo, desses que só a natureza é capaz.

E que beleza a sua copa florida contra o céu azul! De encher os olhos de lágrimas!

Pois foi assim mesmo, quando o ví florido, aproveitei ao máximo aquela verdadeira epifania de explosão de vida, tentando capturar em minhas retinas, toda aquela beleza, pois o "show"f oi breve, efêmero, de um dia para outro, da mesma forma que floresceu, vigoroso, as flores caíram, espalharam-se pelo chão feito passadeira de rainha, comprovando o quanto é certo que a vida é feita de fugazes momentos....

Agora só restou um requiem em sua homenagem e se eu soubesse fazer, ele bem que merecia um haicai inspirado, mas só consegui chorar uma lágrima fujona e escolher, do chão, a folha mais bonita e trazer para casa, com o maior cuidado, para colocá-la dentro de um livro querido, numa tentativa, quem sabe, de eternizar o ipê rosinha.

Sei que vai incomodar e muito o vazio por ele deixado naquela calçada e com ele, se vai também, um pouco do charme que sua presença elegante conferia ao lugar , vai daí que sugiro à turminha da casa azul, plantar ali, outra árvore, quem sabe uma pitangueira, de pequeno porte, graciosa e que de quebra, produz frutos.

Presa ainda às palavras de Adélia, elas me fazem transcender que se a beleza enche-nos os olhos de lágrimas, as ausências, mais ainda, seja lá de uma pessoa, de um bichinho, de uma árvore e de tudo mais que desperta em nós, emoções, sentimentos. Como é doída uma partida...

E o mais incrível, conto agora. Toda a delicadeza e bravura da essência de nosso ipê, foi demonstrada, pois enquanto ele poderia ter caído sobre a casa, não o fêz, lutou  bravamente contra a natureza ressentida, sabe-se lá de quantas provocaçôes e quedou-se estendido ao longo da calçada, não sem antes suportar até o limite máximo de suas fôrças, que o carro estacionado sob sua sombra, dali saísse, levando sã e salva, a moça que também trabalha na casa azul! Que história!

Vou procurar por ipês clarinhos, nas futuras floradas que por ora demoram,  para lembrar a árvore que encantou a mim e mais um punhado de gente.
E a primavera segue sem ele. o ipê rosa, rosinha..

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Crônicas de Dona Regina

E Por Falar em Saudades
por Regina Padilha

"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos,
há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam,
mas há pessoas que aparecem em nossas vidas
e nos marcam para sempre."
                                                                   Cecília Meireles



Já aconteceu com vocês, de estarem de repente com o peito apertado e asssim, sem mais ou cerimônia, uma saudade sem saber exatamente de que, difusa, confusa, aparecer , mexer com você deixando-a como eu , agora, sensível, saudosa, mas de que será, meu Deus?
E  tentando encontrar o rosto desta saudade, vão desfilando pela minha memória, as tantas pessoas que já entraram e as que saíram da minha vida, por diferentes motivos.
Ao visualizar mentalmente  aquelas que se foram, fico muito triste, porque, bom mesmo é não ter ninguém que saiu para lembrar e só lembranças dos que entraram na minha vida e ainda fazem parte importantìssima dela, mas não é bem assim, viver exige esforço e provoca dor, amar então, quantas alegrias, mas também, por amor, quantas decepções, quantas lágrimas derramadas...
Tem aquelas pessoas que pelas circunstâncias, geografia, falta de tempo ( será? ), mudança no jeito de olhar ou de viver a vida, foram saindo pouco a pouco e quando dei por mim, muito tempo havia se passado.
Tem aquelas que por mais que eu quisesse que ficassem, não consegui retê-las e feito passarinho, voaram e deixaram o galho balançando.
Tem aquelas que saíram de hoje para amanhã, não deram explicações nem tampouco eu pedí, mas já tinham fincado raízes sólidas em meu coração e basta um e-mail, um telefonema( às vezes é preciso escutar a voz), um encontro casual ou programado e pronto! Imediatamente a relação está restabelecida.
Nesta categoria última, a mim parece, estão aquelas que realmente contam, aquelas pelas quais mantemos vivos, sentimentos verdadeiros de amor  e amizade e que penso, estarão "contando", pela importância que têm, para toda a vida, aquelas das quais, ainda que sem ver, não esquecemos do  olhar, do  sorriso e a simples lembrança, nos dá grande alegria.
Fica tão cristalino, que deveria arrumar jeito, tempo, sei lá mais o que, para estar com os queridos que fazem falta, porque tempo com o amigão ou amigona, é sempre tempo ganho, aproveitado, vivido.
Todas as pessoas que amamos, que admiramos, precisam ouvir de nós, palavras amorosas, para terem consciência do quanto as queremos e no entanto, nem sempre conseguimos estar com elas para exercitar este amor, para que "um pequeno nada", como um sorriso, um olhar compreensivo, um papo gostoso, uma gargalhada por uma besteira qualquer, uma flor, preencha de carinho os nossos corações.
A brandura, a generosidade, a delicadeza, a humanidade das pessoas, nos mostram como a vida pode ser boa, se nos propusermos a ser amistosos.
É, depois desta reflexão, esta saudade começa a ter cara, é saudades de todos vocês que um dia fizeram e os que ainda fazem a minha vida mais feliz, com suas presenças, às vêzes ruidosas, outras vêzes silenciosas e com os quais "sei que posso contar para o que der e vier..."                                                          

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Crônicas de Dona Regina

depois de várias semanas sem aparecer por aqui, hoje, Dona Regina veio muito inspirada...


"De Sertões e de Veredas"
por Regina Padilha

"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta." - Guimarães Rosa
Quando estudante de história, ao ler pela vez primeira "Grandes sertões: veredas",l embro que o amor não foi à primeira vista, foi preciso avançar, esperar um pouco, até que Riobaldo se mostrasse em toda a sua envergadura de  - personagem - homem - admirável, para que  aí sim, eu fosse capturada pela prosa  envolvente , messiânica, boa de conversa do bom mineiro de Cordisburgo,  Guimarães Rosa, que passou a ser a minha referência de literatura brasileira e me ajudou a compreender o mecanismo do idioma nacional.
Reli o livro mais umas duas vezes por inteiro e outras por trechos, colecionando anotações de tanta sabedoria, que delas me queria impregnada.
Em comum a todas estas releituras, é que o livro sempre foi emprestado das bibliotecas das escolas por onde estive. Curioso...
E só agora, quando os meus sessenta anos já estão quase aqui, agorinha mesmo, e que movida por uma inadiável vontade de ainda outra vez,   percorrer os sertões das Gerais, é que tenho um Grandes Sertões para chamar de meu, este colosso de seiscentas  páginas, onde estão armazenados tantos momentos que inspiram coragem, tenacidade, necessidade de romper com o cotidiano em busca de algo maior e  em que Riobaldo, mexe com o leitor, provoca uma onda de sentimentos,"sossega e depois desinquieta", como ele mesmo díz.
Encomendei o livro e quando ele chegou, foi como se fosse o meu primeiro e a surpresa  maravilhosa..., o livro, faz parte da ediçao especial de dez mil exemplares, da edição limitada comemorativa dos cinquenta anos de Grandes Sertões( 1956 ), acompanhado do catálogo da mostra concebida por Bia Lessa, em exposição no Museu da Língua Portuguesa( SP ), durante o ano de 2006.
O super pacote foi um presentão, livro, catálogo e CD, além de encadernação luxuosa, em tecido branco com o título bordado em letras vermelhas, absolutamente compatível ao drama ali dentro narrado e à importância da obra na minha vida de leitora incansável.
Para começar ou melhor, recomeçar, o mantra da obra:  - "Mire e veja" - ou seja mire; agora não olhe para o lado, e aí veja".
Que sabedoria, não? No nosso cotidiano, é sem conta o número de ocasiões em que olhamos de forma borrosa e desfocada e , desatentos, perdemos maravilhas e oportunidades, o que não aconteceria se  lembrássemos do mire e aí sim, veja.
Nesta releitura madura, foi tão significativo, relembrar a existência de um sertão que  é  o  mundo  e o sertão que vai dentro da gente, e que é preciso muita coragem para mergulhar neste sertão pessoal, particular, porque é levantar poeira, é mexer em vespeiro, é cutucar ferida e sabe-se lá, quantas...
Aquelas veredas das Gerais, que se alargam de um lado até Goiás e de outro até a Bahia, do prosear seguro de Guimarães Rosa, o que  elas são , na verdade, são as veredas dos nossos sentimentos, nem sempre compreendidos e pior, quase nunca admitidos e a nossa luta, vezes contra a vida, vezes contra os outros, vezes contra nós mesmos, o que a mim parece a mais difícil delas.
E assim, coração aos pulos, olhos marejados, garganta em nó, chego ao fim da releitura arrebatadora, pés fora do chão, embrenhada sertão adentro, onde percorrí veredas, ouví o pipoco dos tiros, sentí o cheiro do sangue derramado na guerra guerreada, perdí-me na saga de Riobaldo, mergulhei no verde dos olhos de Diadorim, Maria Deodorina, elazinha mesma, que em vida viveu o que parecia ser um amor impossível, mas que em verdade, era só um mal compreendido...
Aqui não vou resistir ao clichê irresistível,"um clássico da literatura"que , quando lido "para prestar vestibular",não comove nem um pouco aos leitores de cabresto, que mal conseguem ultrapassar as primeiras vinte páginas e vão rapidinho atrás do resumo mais curtinho, mas lido no outono, quando a impaciência agora é paciência, aí sim, ai meu Deus, é atrelar o cavalo baio, gibão, chapéu de couro, água no cantil, cachaça que é de muita serventia, para limpar as feridas do corpo e tontear as da alma, farinha da mais pura, bala na cartucheira e toca prá frente, meu filho, tome tenência, que corpo mole é de pouca serventia...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Crônicas de Dona Regina

impossível de não sentir saudades... mesmo para quem não conheceu a Candoca, a saudade de subir em árvore deve existir... dona Regina, sua arte está em nos fazer sentir... simplesmente sentir...

Candoca, a árvore com nome de gente
por Regina Padilha

imagem gentilmente cedida pelo arquivo do Colégio Vita et Pax



Folhando meu "cadernão de memórias", deparei-me com um texto meu escrito em 2005 e relendo-o observei que existem sentimentos e percepcões que permanecem intactos,  com e apesar dos anos que vão em frente.
Então deu vontade de adaptar o texto aos dias de hoje, preservando as permanências sentimentais que são bem mais numerosas que as mudanças.
Durante grande parte de minha vida, tive a alegria de frequentar o Colégio Vita et Pax, unidade I, Jardim Recreio, primeiro como mãe de alunas e depois como profissional e toda vez que entrei e saí da escola, não consegui resistir e dei uma olhadinha para ela.
Vê-la ali, gigante, infinita por todo o seu simbolismo, acalmava meu coração, porque era uma referência que fazia parte da minha vida e dava a impressão de que enquanto ela ali estivesse, eu podia estar tranquila, porque a vida estava sob controle ( doce ilusão )...
Estou falando da "Candoca", esta árvore tão incorporada à identidade da escola, que parece que esteve ali desde sempre, guardiã de infâncias e adolescências tranquilas e seguras e que não é apenas uma árvore,  até porque árvores costumeiras dão frutos, ao contrário dela, cuja produção é de sonhos!
Quem um dia, de alguma forma, passou pelo Vita, sabe do que estou falando...,sabe por exemplo, das tantas gerações que transformaram a Candoca, cada uma de acordo com seus sonhos, em tronos de princesas, em boléias de diligências cortando estradas, em corcéis velozes, em tapetes voadores, em cabana de Tarzan, ou simplesmente em bancos seguros e confortáveis.
Cada vez que olhei para ela,imediatamente a associei à Tia Yolanda ( sou contemporânea dela, o tia é por conta da tradição, ela que não é apenas uma pesssoa, mas uma instituição que se confunde com o Vita et Pax ) e foi quem recebeu a muda de árvore  da família de uma aluna e a plantou. A pequena mudazinha  foi regada, cuidada pelas crianças e transformou-se em árvore encantada, com direito a batizado  e doce nome próprio, Candoca.
Sempre que ví as professoras ou mães de alunos preparando uma festinha de aniversário, sob  a sombra acolhedora da Candoca, fiquei emocionada, porque a história daquelas pessoas se confundiu com a minha própria história, eu que tantas festinhas ali preparei para meus alunos e minhas filhas e sem muito esforço, sou capaz de através da minha memória sonora, ouvir as risadas, as brincadeiras, a alegria daquele lugar que era no momento, um mundo inteiro!
Sei que minhas palavras irão encontrar ressonância no coração de muita gente que teve ou tem o privilégio de ter no Vita, a sua  escola ou a  de seus filhos ou  que guardam a lembrança de uma escola querida, onde também havia uma árvore diferente de todas as outras e daí, a única.
Porque cá entre nós, uma escola que tem árvore com nome de gente e que desde sempre, muito antes das tendências modernistas, teve entre seus objetivos a preservação ambiental, o convívio harmônico entre aluno e natureza e antes de erguer paredes, plantou um bosque, só pode ser uma escola especial!
Já não moro mais no Jardim Recreio, mas sinto uma falta enorme das caminhadas matinais, quando passava ao lado do Vita e  via lá, linda, imponente, a Candoca tão querida por  tanta gente, e era como se o tempo não houvesse passado, como se tudo fosse como sempre foi e a vida fosse apenas, uma árvore encantada, uma festinha de aniversário com muitas crianças felizes e um dia ensolarado...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Crônicas de Dona Regina

depois de duas semanas sem crôniquinhas, hoje é dia das palavras de dona Regina (que anda um pouquinho rebelde em função do "dona", será que devo mudar para "tia" ou simplesmente Regina?!)...
e hoje a crônica está muuito especial! aproveitem a leitura!

Muito Bom! Parabéns! Que Bacana!
por Regina Padilha

Outro dia, agorinha mesmo, em uma reunião, reencontreei e encontrei pela vez primeira, algumas pessoas, das quais ouví - adoro suas crônicas -; - você é Dona Regina, das crônicas tão gostosas de ler? - e mais outras palavras generosas e simpáticas, que em plena luz do dia, mesmo me fazendo corar, admito, fizeram com que me sentisse uma pop star.          

Mas o que vem ao caso, agora, é que este fato levou-me a refletir o quanto é importante uma palavra de aprovação,  de entusiasmo, de reconhecimento. Quantas pessoas produziriam mais, seriam mais felizes e assim, de certo, fariam outras pessoas mais felizes também, se nas suas áreas de atuação, se sentissem confortáveis, seguras, respeitadas e reconhecidas, o que refletiria em qualidade no trabalho.        

Repenso a minha própria atividade profissional e reconheço que meus piores momentos, foram aqueles em que não estava à vontade para trabalhar, porque em permanente estado de alerta, sabedora de que alguém queria ver minha cabeça rolar e meus mais produtivos períodos, foram os que reconhecida e daí encorajada, ousei mais e obtive os melhores resultados. 

Hoje vejo, que muitas pessoas, é bem verdade que não todas, mas muitas, e exatamente aquelas que carregam na bagagem, algum tipo de "sequela"ou "ranço" social, moral, intelectual ou até psicológico, ao ocuparem um cargo de chefia, ao sentirem-se de posse de algum tipo de poder, instalam no seu entorno, um clima de conspiração em que  ninguém confia em ninguém e "ele"( pode ser ela), confundem orientação, coordenação, com cobrança, incapazes  de corrigir rota  de forma profissional.

São aqueles que, como dito pelo povo,"subiram num tijolo e vislumbraram um palanque". 
Tem muita gente que acredita e apregoa que as pessoas precisam aprender sozinhas, em cima de seus erros, mas será mesmo assim?

Se o valor de um diamante que  opaco e bruto sai da terra e o esplendor dele depende inteiramente do sopro do lapidador, que reconhece o potencial da pedra, investe nela e consegue, depois da lapidação, faze-la reluzir esplendorosa? Se é o maestro que em sintonia fina com seus músicos, consegue tirar de cada um a sua melhor melodia?

 E ainda, ocorre-me a figura da professora amorosa e competente, que colocou entre as suas, as pequenas mãos do aprendiz e juntos  desenharam a  letra "a'', para depois o menino  repetir o exercício sozinho  e triunfante e ainda o vovô, que ensinou  a cada um de deus netos a andar de bicicleta, segurando o selim, até que a criança confiante dessa proteção  foi  em  frente e quando notou , estava bicicletando independente.

Em todos os casos, deu-se a mágica, possível, porque alguém encorajou e o outro sentiu-se confiante. 

Mas, como é importante pensarmos antes de falar, como é sério dirigir-se à alguém, coisa que fazemos na maior parte das vezes, impensadamente e no entanto, a palavra é a mesma, ou aquela que promove, faz maravilhas ou soterra, esmaga, feito avalanche devastadora. 
Eu mesma, depois de décadas escrevendo no "cadernão das minhas memórias", só estou aqui tendo a ousadia de bater este papo com vocês, graças à Ju, que além de generosamente ceder-me o espaço, fez-me crer que meus escritos podiam ser compartilhados, o que foi um baita de um estímulo!  

Assim, se está faltando, na sua vida, reconhecimento, confiança, fica tristinho não meu bem, seja paciente, trabalhe, busque em você , a força que  tem , embora saibamos que há momentos em que elas parecem ter acabado, observa a natureza e aprende com ela. Já reparou quantas vezes uma onda que parecia forte, recua, retrocede, ganha volume, impulso e daí sim, fortalecida, vem derramar-se todinha na areia?

A vida é assim mesmo, como dizia meu querido Riobaldo em "Grandes Sertões, Veredas",  pela pena de Guimarâes Rosa -"o que a vida quer da gente, é coragem..."
Mas que um muito bom, parabéns, que bacana, são delícia, não há como negar, eu que o diga. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Crônicas de Dona Regina

surpresa! dona Regina preparou uma crôniquinha linda em comemoração a este mês de junho delícia!

"Noite fria, tão fria de junho"
por Regina Padilha

Nas minhas memórias de passado mais longe, mas de saudades tão perto, se há algo que me coloca lágrimas nos olhos, são as festas juninas, com tudo aquilo que elas têm de encantamento, alegria, tradição.
A temperatura mais fria, as quermesses das igrejas, das ruas, das famílias, dos amigos, das escolas e nelas, a quadrilha – “olha a cobra, olha a chuva” -, as barraquinhas de pescaria, argola, o mastro de São João, o quentão, milho cozido, pinhão, bolo de fubá, canjica, pipoca, amendoim e a fogueira cuidadosamente preparada e ardendo em brasas de labaredas bailarinas, que aquecem o corpo e amolecem o coração...
Fico tão feliz, hoje em dia, quando sei de uma festa junina que pede para os convidados irem vestidos à caráter, pois acredito que é uma maneira de manter viva, a tradição, a memória que vem de longe e não pode se perder.
A devoção aos santos juninos, os campeões de popularidade, Santo Antonio, São João, São Pedro, as 
 simpatias e crendices que envolvem cada um deles, quanta cultura popular, quanta esperança em obter a graça pretendida, de namorado a marido, de emprego a dinheiro, mas que de verdade mesmo, traduzem exatamente a mesma intenção, a busca incessante da felicidade.
Junho é mesmo um mês especial, acho até que mágico, talvez porque está ligado a coisas muito prazerosas, como dormir quentinho embaixo de um cobertor bem macio ou edredom fofinho, assistir televisão comendo pipoca, usar meias com teninhos,(acho que a palavra não existe, mas é mesmo, para mim, o diminutivo de tênis ou keds) moletom confortável, ouvir músicas que há tempos não ouvimos, reler aquele livro inesquecível, abrir a caixa de fotografias e ficar olhando tanta gente querida, saborear uma taça de um belo vinho tinto em temperatura ambiente, mas acima de tudo, junho não é mês para solidão, é tempo de calor humano, cobertor de orelha, mãos e pés entrelaçados, “chega pra cá, meu bem”...
Não bastasse tanta coisa boa, com junho chegam as lufadas de vento, que com ele põem no céu, as primeiras pipas coloridas, olha a amarela, a verde e aquela de rabicho bem comprido?
Tem coisa mais linda que uma pipa dançando bem lá no alto? Acho que o encanto que elas nos provocam, vem do fato que adivinhamos atrás da pipa, um menino sonhador, que espreme os olhinhos para acompanhar o seu vôo mágico e sorri satisfeito, orgulhoso “de ser o comandante daquele objeto voador...”
Ah, junho, quantas saudades, quantas doces lembranças, o meu encontro com o meu amor, numa noite de temperatura fria, mas que uma troca de olhares foi bastante para me ruborizar a face e selar com o dele, o meu destino.
Junho, junho, lua cheia, que de tão linda, me dá vontade de abraçar...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Crônicas de dona Regina

e porque hoje é quarta e ela, nossa querida dona Regina, parece ter tomado gosto pelas crôniquinhas... elas chegam cada vez mais adiantadas em meu email...
que curtição!

A beleza de ser simples
por  Regina Padilha

“Pra gente aqui ser poeta,
Não precisa professor.
Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio,
Um verso em cada flô.”
                              Patativa do Assaré

Talvez porque o sol de maio se aproxima do poente, lembrei demais deste verso acima, estou com ele na memória e deu vontade de reler o poeta cearense de Assaré, sul do Ceará, que viveu como agricultor no Cariri, mãos calejadas, face crestada de sol, mas de coração passarinheiro, que fez do caboclo roceiro, o foco da sua poesia matuta, atestando que poesia não se aprende na academia, mas no jeito de olhar, sentir e compreender a vida.
O poeta, dos muitos títulos e honrarias recebidos, sempre disse que o que mais lhe deu alegria, foi ser chamado Patativa, a ave de canto suave, mas de natureza resistente, que tão bem
fez jus, a quem fez poesia como que fez oração.
Em tempos em que se multiplicam nas mesas dos points da moda , os pseudos-cults, que falam , falam ou escrevem e escrevem, mas passam ao largo dos nossos corações e portanto, nada acrescentam, a poesia espontânea de Patativa, é água fresca e cristalina que nos mata a sede, e o que ele escreveu, está muito acima dos compromissos gramaticais, porque desperta emoção , é carinho que nos é oferecido.
Toda a beleza desta obra literária, está na simplicidade, na autenticidade, na contextualização, não ferindo pois, o idioma, já que Patativa não soaria verdadeiro, se engessado em regras do correto falar.
Se Patativa foi um simples nas coisas da terra, foi grandioso nas coisas da alma, sendo merecidamente chamado o poeta da justiça social, porque, com sua poesia, panfletou contra os desmandos vividos pela gente mais sofrida, sendo por isso perseguido e até mesmo preso, o que não o calou, ao contrário, só o fortaleceu a continuar sendo a voz dos emudecidos por tanta injustiça, como é o caso dos tantos sertanejos perdidos nos cafundós do Brasil.
Com Cora Coralina, somos incentivados a recomeçar, enquanto o chamamento de Patativa do Assaré é mais contundente, ele apregoa a luta , o enfrentamento a tudo aquilo que nos faz mal, de alguma maneira, sugerindo que sem cansar , sem esmorecer, mantendo o coração sereno e o encantamento a cada novo dia ,nós é que temos que vencer a vida e na vida, nem que for só de teimosia!
Se você por acaso não conhece este brasileiro-passarinho, vá buscá-lo, vá mergulhar em suas palavras que arrebatam, instigam e enternecem, é garantia de, no mínimo uma lágrima fortuita escorrendo pela face, de pura emoção, como se nele reencontrássemos um pouco da força e do olhar que queremos ter e é certo que, quem o encontrar, vai sair procurando “no mês de maio, um poema em cada gaio, um verso em cada flô...”

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Crônicas de Dona Regina

esta semana está sendo surpreendente... encontros, relatos e várias carinhas novas por aqui...
e para deixar estes novos visitantes à vontade vou explicar... 
Dona Regina é minha mãe, que sempre escreveu coisas lindas, mas só os fundos das gavetas é que liam...
agora ela tem um dia da semana para dividir seus escritos com quem os quiser ler, aqui no bloguinho...

O quintal de minha maturidade
por Regina Padilha

Um dia uma pessoa querida, referindo-se à Praça Sete de Setembro, disse que ali havia sido o quintal da sua infância, linda licença poética, e hoje, num contraponto, percebo a mesma praça, como o quintal da minha maturidade e como acredito, que todos precisam de”um quintal” para conectarem-se com as suas eternas crianças, proseio um pouquinhode tudo que ali distrai meu coração.

Começo meus dias com minha companheirinha Nina, caminhando pela praça e neste exercício, com meu olhar aprendiz, tenho descoberto árvores majestosas e centenárias, tão senhoras do lugar que dão a impressão de que desde sempre ali estiveram. São seringueiras, figueiras imensas, pau brasil, jambeiro, amoreira, pé de jatobá, sibipirunas, anjicos, faveiros, umbuzeiros, numa profusão de todas as matizes do verde e como se não bastasse esta fartura vegetal, lá estão as jibóias forrageiras que serpenteiam sobre a terra e mais parecem tapete fofo e aveludado, tudo tão harmônico e bonito , que adivinhamos a assinatura do Arquiteto renomado.

Tem também muitos passarinhos, bem-te-vi, sabiá, beija-flor, andorinha e muitos encrenqueiros pardais em revoada, além dos sagüis, tão pequenos quanto graciosos. Embora os quatro lados da praça sejam ocupados por ruas movimentadas, ali dentro, como num santuário, há uma espécie de vida própria que a isola do entorno. Mas além do verde, dos bichos, do frescor delicioso, a maior riqueza está nas pessoas, tão diferentes umas das outras, mas que têm em comum a frequência do lugar.

De acordo com meu estado de espírito, há dias em que caminho rezando, outros observando, meditando e sempre, uma palavrinha aqui, um bom dia acolá e muitos sorrisos aqui e acolá. Há freqüentadores pontuais e os habituais. 

Babás com crianças que brincam divertidas, jogam bola, pulam corda, pique-esconde e riem, riem muito. A algazarra alegre me faz lembrar Adélia Prado – “Ah, meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande, seria tão bom, como já foi...”- e acho uma delícia , se por acaso a bola chega até mim e tenho a oportunidade de devolver para a meninada, quando por um breve instante, seduzida pela brincadeira, sou menina outra vez, despreocupada , sem medo de nada.

Há os solitários ensimesmados, perdidos sabe-se lá em que pensamentos, deprimidos talvez e que busquem ali, ordenar as idéias ou que simplesmente, divagam embriagados de natureza. Tem jovens mamães empurrando carrinhos com seus bebês gorduchos. Há senhoras na faixa dos setenta que trocam receitas de comidas e claro, de remédios.

Há muita gente na minha faixa etária, nem cinqüenta, nem setenta e os senhores, em número inferior ao das
senhoras, cujo assunto é o politiquês, falar mal dos políticos e apresentar soluções perfeitas para um Brasil decente. Como todos falam alto, certamente não porque a audição já não seja das melhores e sim pela conversa animada, acabo ouvindo fragmentos e percebo entre os homens, que todos estão muito bem impressionados com o” estilão gerentona-eu trabalho da Dilma” e que entre as senhorinhas, a berinjela continua imbatível contra os males do colesterol e hipertensão.

Assim, tão simples, tão cotidiano, tão bom, que volto para casa renovada e pronta para um novo dia e com ele uma nova caminhada com Deus.

Em tempo, a praça da minha prosa, existe no período da manhã, porque junto com a canícula do meio dia, da temperatura, aos freqüentadores, é como se uma bruxa malvada, num feitiço perverso, surrupiasse dali, a maior parte do encanto. Vai saber...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crônicas de Dona Regina

Para quem carrega no peito o sentimento de maternidade
 Por Regina Padilha

 Porque é maio. Mãe, Mulher, Maria, Madalena, Madre. Porque é maio e neste momento, em algum lugar, haverá uma mãe chorando por seu filho, por motivações ambíguas, já que mãe chora pela dor dos filhos, mas chora igualmente diante da alegria deles.

Mães do Brasil, de Ribeirão Preto, da Praça de Maio, do Kosovo, do Senegal, de Londres , de Paris, de Lisboa, mães italianas, belas donas, mama mia, que importa? Todas essencialmente parecidas, por mais acentuadas que sejam as diversidades geográficas e culturais, unidas na determinação de fazermos de tudo por um sorriso dos nossos filhos.

Mães que multiplicam-se, verdadeiras malabaristas para cumprirem bem todos os papéis que lhes cabem, circulando com a mesma desenvoltura em escritórios, no hospital, na sala de aula, no consultório, nas lojas, no banco, na cozinha , na rua, no trânsito. Mães equilibristas, enquanto elaboram o plano de trabalho do dia seguinte, organizam também o cardápio, a geladeira, vão ao supermercado, fazem a barra da calça, arrumam a mochila, acompanham a realização da tarefa escolar, preparam o lanche, bem cedo, enrolando-o cuidadosamente em papel alumínio e nunca, nunca mesmo esquecem de lavar muito bem a maçã, que na maior parte das vezes nem será comida.

Mães que relacionam-se lindamente com seus filhos; mães cujos filhos afastaram-se delas sabe-se lá em que parte do caminho; mães angustiadas pela desarmonia na família; mães obrigadas a dizer não aos pedidos que lhes são feitos; mães que oferecem o seio esquálido a seus bebês, num gesto estóico para aplacar-lhes a fome; mães que têm a mesa farta e filhos ausentes; mães que preparam  a cama para o filho que não vai voltar; mães agradecidas a Deus por toda  a felicidade que possuem; mães cuja simples presença do filho faz da ocasião uma festa.

A partir do momento em que uma mulher descobre-se grávida, tem início uma linda história de amor, marcada pelos mais singelos detalhes do desenvolvimento do bebê, os “chutinhos na barriga da mamãe”, se possível testemunhados pela família inteira, o ultra-som muitas vezes já colocado em porta-retrato e depois do nascimento, o famoso” parece com quem?”

Para a família da mãe, é a carinha dela e claro, para a família do pai é ele quando pequeno, a cabecinha recendendo à lavanda Jhonson’s, os pezinhos pacotinhos de tão gorduchos, que não cansamos de beijar, o primeiro dentinho, a ida para a escola, as travessuras, as festinhas de aniversário com muito brigadeiro, as competições esportivas em que , faça chuva ou faça sol, lá está ela torcendo enlouquecida na primeira fileira, os namoricos, a formatura, as decepções  de um lado e as vitórias de outro, o casamento,  a vida profissional..., ufa, enfim a vida do filho é acompanhada de perto por ela, que se pudesse faria com que só as coisas boas acontecessem.

De verdade, não adianta disfarçar ou fazer pose, o que nos assemelha tanto, é que somos mesmo, todas, completamente loucas por eles ...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Crônicas de Dona Regina

a crônica desta semana veio acompanhada de um bilhetinho, uma pequena justificativa, de quem ainda parece estar se acostumando com a ideia de escrever para leitores ...

"Segue  meus escritos desta semana, que na verdade poderiam ser também outros três, mas como a semana que vem é tipo coração, penso que na linha do cronista que escreve de olho no mundo , esta é bem oportuna. Beijo."

O Peregrino da Paz 
por Regina Padilha

No próximo dia primeiro de maio, a Igreja Católica vai beatificar o Papa João Paulo II, para alegria de todos que sentimos como o mundo ficou mais triste sem ele.
A figura branca e dúbia, entre forte e leve, vai custar para diluir-se em nossa memória, independente da religião de cada um.

O Papa do século XX, mais que uma missão religiosa, exerceu um papel político inigualável, próprio do grande líder que foi, influenciando decisivamente na queda do muro de Berlim em 1989 e no desmembramento da antiga União Soviética em 1990.

Coerente com seu passado de jovem polonês, que viveu os horrores da ocupação nazista da Polônia e testemunhou o sofrimento de seu povo diante da ditadura comunista, teve a coragem de publicamente desculpar-se pela atitude omissa da Igreja Católica diante do holocausto judeu.

Num gesto de extrema generosidade e da mais autêntica prática do cristianismo, perdoou o agressor que por muito pouco não lhe roubou a vida.

Foi o Papa que percorreu os quatro cantos do mundo, levando aos lugares por onde passou, o carisma que despertava nas pessoas, os mais nobres sentimentos de tolerância, solidariedade e fraternidade universais.
Nas quatro visitas ao Brasil, a primeira em 1979, uniu os brasileiros, envolvendo a todos num sentimento de comoção e estado de graça, como se dele emanasse tudo que era bom.

Inesquecível a lembrança de um momento mágico desta visita, quando ao encontrar-se com Dom Hélder Câmara, deram-se um caloroso abraço, seguido das palavras –“você é o padre dos pobres e por isso é meu irmão-“. Nesta ocasião, segundo Dom Hélder, foi como se todos os homens estivessem naquele abraço e ele, Dom Hélder, representasse a humanidade.

Tratou com a mesma benevolência a católicos, judeus, muçulmanos, evangélicos, sinalizando que muitos são os caminhos, mas Deus , um só. João Paulo II levou de nós, ao morrer, a gratidão por ter sido quem foi e recebe agora, a nossa homenagem emocionada pela beatificação, ele que amenizou  com sua presença e bondade, as dores que não são poucas desta humanidade que o reverencia.
A benção João de Deus...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Crônicas de Dona Regina

Cafézinho, pão de queijo e um dedinho de prosa...
Por Regina Padilha


Adoro as Gerais.

Paixão não de superfície, mas de profundidade, coisa antiga que começou nos tempos da faculdade de história e foi intensificando-se à medida em que eu compreendia e ensinava a influência de Minas Gerais no desdobramento da História do Brasil. Até a bandeira do estado é especial, estéticamente linda, fundo branco, triângulo vermelho e o dístico "Libertas quae sera tamen”- Liberdade ainda que tardia-, tudo denso de significado, mas isto é assunto para outro dia; hoje de Minas, quero falar das amenidades, belezas e delícias.

A paisagem exuberante, as serras, o inverno rigoroso, a neblina, a comida feita em panela de ferro e tacho de cobre, o maior acervo de arte barroca do Brasil, a arte sofisticada em estanho, pedras preciosas e mais rústica, em pedra sabão, o artesanato intuitivo riquíssimo, o mineiro, a mineirice.

Perdi as contas das idas às cidades mineiras e no entanto, a cada vez é como se fosse a primeira e a cada vez, sei que preciso voltar, descobrir, desvendar mais...

Belo Horizonte, entre cosmopolita e barroca, emoldurada pelas serras do Curral del Rei, por onde passaram tantos personagens com as mulas carregadas de riquezas que nos foram espoliadas, tanta história.

Tiradentes, o céu mais azul que conheço, o casario, os museus, as casa de telhados sem eira nem beira, as ruas de calçamento em pedra amendoim..

Mariana, as igrejas com fachadas, altar e esculturas em barroco português, as minas de ouro já improdutivas e algumas poucas com minguada produção, exauridas por séculos de ambição incontrolável.

São João del Rei, a terra de Tancredo Neves, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, com seu órgão secular e que ainda hoje, produz um som dos anjos.

Ouro Preto, a adorável Vila Rica, encantada, as íngremes ladeiras, as fazendas e senzalas onde com um pouco de imaginação, podemos adivinhar a lamúria dos escravos, vítimas de banzo,que ao perderem a liberdade, perderam o seu bem mais precioso, as pousadas aconchegantes, os restaurantes com fogão à lenha no meio do salão, a praça imponente do Museu da Inconfidência, onde eu, particularmente, mal respiro de tão emocionada, diante de tanto legado histórico.

Barbacena, onde num mês de julho, passei o maior frio da minha vida, compensado e bota compensação nisto, por um jantar à beira do fogão à lenha, com frango com quiabo, lombo com torresmo e covardia, doce de leite, de colher, claro, brincadeira que rendeu dois quilos que tive que acrescentar à bagagem...

Congonhas do Campo, Aleijadinho, a Igreja de São Francisco, Os Doze Profetas, esculturas que nem mesmo a má preservação, conseguiu ofuscar o valor artístico.

Diamantina,”como pode o peixe vivo viver fora d’água fria...”, as serestas pelas noites estreladas, a arena com as mais variadas manifestações artísticas, os conventos com seus claustros enigmáticos.

Ai de mim, que dói-me o peito de saudades de todos e de cada um destes lugares e que perdida em lembranças, sou capaz de sentir o sabor-prazer de um cafezinho-pão de queijo e os muitos dedinhos de prosa com esta gente tão maravilhosa. Vou voltar, certeza, porque sei que lá, minh’alma viageira reconhece cada esquina e meu coração , bate num tum-tum, sossegadinho, feito o mais autêntico coração mineirinho, sô...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Crônicas de dona Regina

Era abril e fazia sol lá fora
por Regina Padilha

Desculpem-me, mas hoje a data é especial e como parte da catarse para manter-me equilibrada   e  serena, preciso falar...
 
Era 16 de abril de 1997. Fazia sol lá fora.
Mais um dia começava igual a tantos outros. Café da manhã apressado. Cada um seguindo rumo às suas atividades.
 
Pouco depois das dez horas da manhã, um telefonema mudou o rumo do meu dia, muito mais que isso, mudou o rumo da minha vida, fez ruir meus sonhos, meus planos, colocou-me do avesso. Nenhum aviso, nenhum sinal., sequer uma despedida.
 
Abruptamente minha primeira filha, Luciana, a doce Lu, aos vinte e três anos, simplesmente foi embora, partiu para uma longa viagem, para descobrir, imagino eu, novos mundos, novas percepções, outras dimensões. Fiquei desnorteada, atônita, em choque, coração partido e uma dor que não conheço mais doída, com a nítida sensação de que não conseguiria continuar.
 
No dia seguinte a esta partida, outra vez lá fora, fazia sol, na rua o vaivém do cotidiano acontecendo e para mim, o espanto em tentar compreender como era possível, que enquanto eu não sabia como viver sem ela, como enfrentar aquele quarto vazio, a vida inalterável, seguisse seu curso.
 
Mas dia após dia, um passinho de cada vez, apoiada no carinho da família, dos amigos, dos alunos e em Deus, fui compreendendo e aceitando que tudo faz parte de um plano que o Pai tem para cada um de nós e fui juntando os pedacinhos.
 
Neste processo de reconstrução, um episódio teve peso significativo, foi quando um dia, a Ju, com os olhos nadando em lágrimas, veio bem pertinho de mim, enlaçou-me e disse-me - “Mã eu estou aqui, dá um sorrisinho prá   mim...-” Palavras abençoadas, acordaram-me para a realidade. Eu tinha alguém, muito amado, precisando de mim. Trocamos num abraço estreito, dolorido, longo, acompanhado dos soluços libertadores que até então escondíamos uma da outra, toda a dor que ambas sentíamos, por uma energia de renovação, de superação, de afeto solidário.
 
Segui. Entendi que uma pessoa tão querida, vai embora, mas não desaparece, ela fica no coração daqueles a quem amou e que a amaram, no amor que deu e recebeu.
 
Hoje a dor é diferente, é doce saudade, sustentada pelas lembranças dos momentos mais bonitos e agarro-me ao sonho-esperança, de que um dia nos reencontraremos e então, todo este amor, estas lágrimas e saudades represados, vão extravasar num abraço que não há mais de ter fim.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Crônicas de dona Regina

e não é que ela se animou... já na sexta da semana passada, fui avisada que a nova crôniquinha estava pronta...

Ainda outra vez
por Regina Padilha



"Recria tua vida
Sempre e sempre
Remove pedras e 
Planta roseiras e 
Faz doces
Recomeça."
Cora Coralina


Não sei em que parte da minha vida Cora entrou.
Só me dou conta de que quando isto aconteceu, foi para sempre.

É para ela que corro toda vez que um ovo de pedra é colocado em meu coração e é ela com
suas palavras simples e sábias, quem me ajuda a remover este ovo de lá.

Sou apaixonada por palavras ou melhor, pelas maravilhas que se podem costurar com elas e em Cora encontro a poesia que diz, muitas vezes aquilo que penso e que gostaria de ter escrito, e é com ela que alimento minha alma de sonho, de nostalgia de tempos que não voltam mais , como se olhasse para um retrato de imagens borrosas pela ação do tempo, mas que não podem e nem quero ver esquecidas...

Uma mulher tão humilde, mas com uma delicadeza intelectual ao mesmo tempo sutil e penetrante.
Suas palavras têm o dom de lavar a alma e de dar vontade na gente, de ser forte e guerreira como ela.
No meu entendimento , Cora não é leitura para dias ensolarados e quentes, de vida febril e efervescente, mas para ser sorvida, palavra por palavra , na luz avermelhada do crepúsculo de outono, quando ao soprar da brisa mais fria, as folhas das árvores tendem a voar num bailado errante...

Penso que todos deveríamos ter uma fonte de beber, que verdadeiramente saciasse a sede, um guru, um exemplo, um apoio, uma fé, algo ou alguém que desse leveza ao nosso viver e sugiro que quem ainda não elegeu este algo ou alguém, visite Cora e acredito que terá assim com eu, a sensaçao de estar sendo acolhido por dois braços vigorosos  e de poder encostar a cabeça num peito largo e amigo que vai ajudar a aquietar o coração, como se ouvíssemos dela:-“psiu, calma, fica quietinha, está tudo bem...”

Afinal, quem , uma vez, ou quem sabe, muitas vezes, não precisou recriar a vida, reinventar a própria história,deixar o passado para trás, esvaziar gavetas, superar erros e decepções, buscar forças quando elas pareciam ter acabado, respirar fundo, sacudir  o medo que paralisava e RECOMEÇAR?
Pois então, recomeça , sempre e ainda outra vez...

quarta-feira, 30 de março de 2011

Crônicas de Dona Regina

dona Regina sempre escreveu... 
caderninhos, agendas, papeizinhos... muitos discursos de paraninfa, cartões de aniversários e casamentos... pensamentos, notas de livros e versos de música...
já propus várias vezes organizar um blog para ela, mas ela não gosta da "obrigação" de escrever e já avisou, quer escrever livre, leve e solta... e se há mãe coruja, a bem da verdade é que há filha coruja também e assim sendo, pensando nos montes de palavras engavetadas, ofereci uma dia da semana, para ela publicar suas crônicas no bloguinho, caso ela queira... e espero que ela queira sempre...  vamos à estréia...

"Nina"
por Regina Padilha

 Chegou em casa no dia 2 de abril de 2002, presente de uma amiga muito querida, para minha filha. Tão pequena que sua primeira caminha foi uma caixa de sapatos, da qual ela não conseguia sair sozinha. 
Depois as fronteiras da caixa foram rompidas e à medida que ocupava, na casa, novos territórios, feito posseira foi ocupando nossos corações, onde instalou-se sem a menor cerimônia. Hoje em dia é parte da família, amor incondicional, sentimento em que a comunicação é feita por olhares lânguidos e devotados.

Passeio com ela pela Praça Sete e satisfeita da vida ela vai’‘trotando elegante” e vez por outra dá um pulinho e lambe minha mão, gesto que interpreto como -“estou feliz... -”. Dia destes, cruzei com um senhor que olhando para ela, disse -“ela está velhinha, né?”- E aí, fiquei tão sem graça, diria até que ofendida...

Mas assim é, uma amiguinha legítima representante dos cachorrinhos SRD ( sem raça definida ), estes adoráveis vira latas que povoam todo o Brasil, para a alegria de quem tem a devoção e companhia de um.

Penso que o único problema de Nina, é uma crise de identidade – tenho comigo que ela não sabe que é cachorro – pois morre de medo dos seus irmãozinhos, tendo inclusive rejeitado vários pretendentes que a cortejaram durante sua vida, e olha que alguns eram bem bonitões, entretanto se derrete toda diante de um colinho de gente...

Aí fico pensando em como um bichinho pode querer tanto e ser tão querido e não consigo compreender quem maltrata ou abandona seja lá, um gato, um cachorro ... Nós, da legião dos que amam cachorros, bem sabemos o quanto é salutar compartilhar a vida com um animal de estimação e seria desnecessário lembrar de tantos episódios reais de  melhoras efetivas em  terapias que trabalham pacientes com a presença e o carinho de bichos, sobretudo porque entre um bichinho de estimação e seu dono ou quem lhe dá atenção  ocorre a mais importante das linguagens, aquela que não usa palavras, mas em que a comunicação estabelece-se através do olhar.

Enquanto escrevo, tenho a meus pés esta Ninoca querida e desejo à todos vocês, a alegria, o conforto , a companhia  e a ternura que recebo dela, num olhar silencioso, mas que traduz o quanto somos importantes uma para a outra...

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